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Published on outubro 11th, 2017 | by ipcf

Entropismo, Cultura e Arte

Encontrar um termo que expresse na essência o comportamento das pessoas dos tempos hodiernos, não é tarefa fácil. O nome dado ao Blog de alguns pastores calvinistas, “o tempora, o moris”, reflete um pouco da situação vivida nos dias atuais; a expressão latina tomada do passado traz a seguinte tradução: “Que tempos os nossos! E que costumes!”
A palavra entropia pode ser definida como a medida da quantidade de desordem dum sistema. A entropia é portanto, uma palavra adequada ao mundo pós-moderno, já que descreve o estado das sociedades atuais, onde quase tudo migra em direção à confusão, onde não há valores solidificados, nem ordem. A entropia na forma se dá por meio da destruição do romance e a entropia no conteúdo é a destruição do mundo dos valores.
De fato, os nossos dias são entrópicos, a convivência harmoniosa com a banalização dos valores familiares/sociais que nortearam a nação em toda sua história, revela o alcance dessa tragédia social. Discorrer ou defender valores éticos, morais, valorizar o casamento monogâmico, heterossexual e sua indissolubilidade é expor-se a violências sem precedentes, que inclui escarnecimento, exposição, ridicularização pública e processos judiciais. Nossos dias se caracterizam também pela anti-intelectualidade, anti-humanismo e superficialidade, símbolos da babel veterotestamentaria.
A definição do que é cultura não é tarefa simplista: “Originalmente o termo cultura não tinha a conotação ampla que tem atualmente. Ele deriva do latim colere que significa apenas lavrar ou cultivar o solo” (VAN TIL, 2010, p. 32). Segundo Honório, “O termo ‘cultura’ surgiu em 1871 como síntese dos termos Kultur e Civilization. Este, termo francês que se referia às realizações materiais de um povo; aquele, termo alemão que simbolizava os aspectos espirituais de uma comunidade” (HONÓRIO, apud LARAIA, 2011, p. 1). O dicionário Aurélio da Língua Portuguesa define como segue o termo cultura: “O complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de outros valores espirituais e materiais transmitidos coletivamente e característicos de uma sociedade” (AURÉLIO, 1988, p.191).
A abordagem conceitual antropológica de cultura define-a em suas teorias idealistas de três formas: 1) “Cultura como um sistema cognitivo. Neste sentido […] cultura é um sistema de conhecimento; consiste em tudo aquilo que alguém tem de conhecer ou acreditar para operar de maneira aceitável dentro de sua sociedade; 2) Cultura como sistemas estruturais […] que é um sistema simbólico uma criação acumulativa da mente humana; 3) Cultura como sistemas simbólicos […] A cultura deve ser considerada não um complexo de comportamentos concretos, mas um conjunto de mecanismos de controle […] para governar o comportamento […] Todos os homens são geneticamente aptos para receber um programa, e este programa é o que chamamos de cultura” (HONÓRIO, apud LARAIA, 2011, p. 3). Desta forma, é possível definir cultura em seu aspecto antropológico, a partir da seguinte concepção: “O homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu […] sendo essas teias […] portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado” (GEERTZ, 1973, p.15).
As origens da cultura ocidental pós Reforma tem relação estreita com o conhecimento: “Apaixonado pela cultura (Calvino), estabeleceu um sistema escolar modelo em todos os níveis, tornando a academia de Genebra um dos mais respeitáveis estabelecimentos de instrução superior de seu tempo. A teologia calvinista, dentro do protestantismo, é a mais abrangente e voltada para a presença cristã no mundo” (FILHO, apud, CAVALCANTI, 2000, p. 140). Portanto a definição de cultura segundo a fé Reformada, segue o seguinte principio: “Cultura não é algo neutro, sem conotação ética ou religiosa. As realizações humanas não são sem propósito, mas buscam alcançar determinados fins, que são tantos bons quanto maus. Sendo o homem um ser moral, sua cultura não pode ser amoral. Sendo o homem um ser religioso, sua cultura, também deve ter orientação religiosa. Não há cultura pura, no sentido de ser neutra quanto à religião, ou sem valores éticos, positivos e negativos […] Cultura, assim, é todo e qualquer esforço e trabalho humano feito no cosmos, para descobrir suas riquezas e fazê-las assistirem ao homem, para o enriquecimento da existência humana, para a glória de Deus” (VAN TIL, 2010, p. 29, 32). Para Van Til (2010, p. 44) “a religião tem o poder de integrar a cultura do homem por meio da fé, porque ela se ergue acima de toda cultura, não sendo parte da cultura como tal, mas a experiência mística da apreensão de Deus na relação de aliança […] A religião deve, então, ser distinguida, mas não separada da cultura”. Do que se pode abstrair acerca do conceito cultura, é possível perceber que esta tem relação com o que se conhece na teologia reformada como graça comum, e sua apreensão intelectual exige a compreensão etimológica do termo no original: “A palavra , significa uma disposição favorável, especialmente o amor exercido para com os inferiores, os dependentes, os indignos” (HODGE, 2001, p. 972). Louis Berkhof (2001, p. 401-402) afirma que: “Na teologia reformada […] o nome gratia communis entrou em uso geral para expressar a ideia de que esta graça se estende a todos os homens, em contraste com a gratia particularis, que se limita a uma parte da humanidade, a saber, aos eleitos […] Em geral se pode dizer que, quando falamos de ‘graça comum’, temos em mente, ou (a) as operações gerais do Espírito Santo pelas quais Ele, sem renovar o coração, exerce tal influência sobre o homem por meio de Sua revelação geral ou especial, que o pecado sofre restrição, a ordem é mantida na vida social e a justiça civil é promovida; (b) as bênçãos gerais, como a chuva e o sol, a água e alimento, roupa e abrigo, que Deus dá a todos os homens indiscriminadamente, onde e quanto Lhe parece bom faze-lo”. Portanto, segundo Charles Hodge (2001, p. 972) “o que se pretende por graça é a influência do Espírito de Deus sobre a mente dos seres humanos. Esta é uma influência do Espírito Santo distinta e acessória à influência da verdade” (HODGE, 2001, p. 972). Desta forma, deve-se compreender que é através da influência da graça comum sobre a sociedade que é sustada a execução da Sentença de Deus: “Por amor do meu nome, retardarei a minha ira e por causa da minha honra me conterei para contigo, para que te não venha a exterminar” (Isaías 48:9); é também através dela que o pecado é restringido socialmente: “Todo homem esteja sujeito as autoridade superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal” (Romanos 13:1-4); a preservação de alguma percepção da verdade, moralidade e religião: “Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se” (Romanos 2:15); a prática do bem público e da justiça civil: “Quando, pois, os gentios, que não tem lei, procedem, por natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmo” (Romanos 2:14); por fim, é através da graça comum que a humanidade, ainda que rebelde à Revelação Especial, recebe muitas bênçãos naturais: “O Senhor é bom para todos, e as suas ternas misericórdias permeiam todas as suas obras […] Em ti esperam os olhos de todos, e tu, a seu tempo, lhes dá o alimento. Abres a mão e satisfazes de benevolência a todo o vivente” (Salmo 145: 9,15,16). Desta forma: “A graça comum não tem apenas uma influência restritiva ou negativa, mas é também positiva e progressiva na motivação da atividade cultural. A cultura é um dom da graça comum, já que, por meio dela, os poderes originais depositados na natureza vieram à fruição […] se não fosse pela graça comum, o mundo teria sucumbido, como um vaso se quebra em pedaços quando se remove seu apoio” (VAN TIL, 2010, p. 271-272).
De fato, se a definição de cultura cumpre uma agenda extremamente complexa, definir arte, de forma especial nos últimos tempos no nosso País é bem complicado. O Dicionário Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, segunda edição, define-a desta forma: “Atividade que supõe a criação de sensações ou de estados de espírito, de caráter estético, carregados de vivência pessoal e profunda, podendo suscitar em outrem o desejo de prolongamento ou renovação; a capacidade criadora do artista de expressar ou transmitir tais sensações ou sentimentos”. Definido o conceito, a abordagem da história da arte segundo Michel Horton (1998, p. 75), nos remete a duas grandes tendências: 1) NATURALISMO, que parte da representação do mundo visível; 2) ABSTRACIONISMO, que não nos remete a objetos ou figuras conhecidas, preferindo as linhas, cores e planos […] Na arte, nós estamos novamente no âmbito da criação, não da redenção; graça comum e não salvadora; o secular e não o sagrado. Contudo, a criação, o comum, e o secular, todos tem a bênção de Deus mesmo sem que tenham utilidade na igreja ou em missões evangelísticas. Apesar do fato de que a Bíblia não é livro-texto de teoria estética, existe algo chamado visão bíblica da arte e de seu papel na sociedade”. Para C. S. Lewis, a utilização que um cristão faz da arte e da literatura deve ter seus limites balizados pelo que segue: “No meu entender, só podem ser saudáveis quando são: (a) admissivelmente dirigidas a nada mais que recreação inocente ou (b) definitivamente as servas da verdade religiosa ou pelo menos moral” (HORTON, apud LEWIS, 1998, p. 80).
Pensar que o entropismo instalado em nossa sociedade, que expõe nossas crianças, escraviza os nossos jovens e envergonha toda sociedade brasileira é algo novo, é desconsiderar a advertência do texto sacro inspirado, que no passado remoto já advertia a Igreja de Cristo: “Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes. desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus” (II Tm. 3:1-4).
Diante do que vimos e considerando as últimas ocorrências “culturais”, necessitamos refletir sobre a ortopraxia da Igreja, já que os últimos acontecimentos tem revelado ódio explicito contra o que é definido como valores judaico/cristão. Inicialmente deve-se compreender que a arte que faz parte da cultura de cada grupo étnico pode se tornar um instrumento de Satanás para execução dos seus projetos: “Agora, deve-se observar que uma das táticas mais sutis do arsenal de Satanás é a tentativa de amenizar essa antítese, de abordar os filhos de Deus com ‘cantigas de ninar’ para que durmam de modo a se tornarem presas fáceis […] e complacentes quanto ao mundo” (VAN TIL, 2010, p. 214); posteriormente, deve-se entender que “O pecado não deixa de abolir o dever como também não destrói o ímpeto da atividade cultural, e o ambiente cultural permanece. A boa terra a qual o homem é adaptado pelo design criativo é também o habitat do homem e seu local de trabalho” (IBIDI, p 70), portanto, e por isso, o ódio da sociedade à Igreja: “Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia” (Jo 15:19); por fim, “O cristianismo histórico, o qual o calvinismo adota, crê que Cristo é o centro da história. Cristo dá significado a todo o passado, já que é a preparação para a sua vinda em carne domina o futuro inteiro até os fins dos tempos, seu segundo advento” (VAN TIL, 2010, p. 241). Portanto, antes de escandalizar-se, lembre-se das experiências pretéritas e entropicas reveladas na Escritura, bem como em outras culturas, a fim de compreender que: “O que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Não! Já foi nos séculos que foram antes de nós” (Eclesiastes 1:9-10); por isso, prepare-se: “Porque vós mesmos sabeis muito bem que o Dia do Senhor virá como o ladrão de noite; Pois que, quando disserem: Há paz e segurança, então lhes sobrevirá repentina destruição, como as dores de parto àquela que está grávida, e de modo nenhum escaparão. Mas vós, irmãos, já não estais em trevas, para que aquele dia vos surpreenda como um ladrão […] Por isso exortai-vos uns aos outros, e edificai-vos uns aos outros, como também o fazeis” (I Tessalonicenses 5:2-4, 11). Maranata!!!!!!

Rev. Adilson Lordêlo


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