Palavra Pastoral

Published on abril 10th, 2015 | by ipcf

A Arte de Agradecer

As relações humanas e o ensino das Escrituras ratificam o conceito corrente na sociedade, de que o gênero humano convive naturalmente com um tipo de amnesia quando a matéria é gratidão.

O Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, define a palavra arte de duas formas: 1-) Atividade que supõe a criação de sensações ou de estados de espírito, de caráter estético, carregados de vivência pessoal e profunda, podendo suscitar em outrem o desejo de prolongamento ou renovação; 2-) Capacidade criadora do artista de expressar ou transmitir tais sensações ou sentimentos.

A abordagem da história da arte nos remete a duas grandes tendências: a) NATURALISMO, que parte da representação do mundo visível; b) ABSTRACIONISMO, que não nos remete a objetos ou figuras conhecidas, preferindo as linhas, cores e planos. Diante dos conceitos propostos é necessário entender a visão do calvinismo acerca da arte: “Na arte, nós estamos novamente no âmbito da criação, não da redenção; graça comum e não salvadora; o secular e não o sagrado. Contudo, a criação, o comum, e o secular, todos tem a bênção de Deus mesmo sem que tenham utilidade na igreja ou em missões evangelísticas.

Apesar do fato de que a Bíblia não é livro-texto de teoria estética, existe algo chamado visão bíblica da arte e de seu papel na sociedade” (HORTON, 1998, p. 75). Parte significativa dos conflitos relacionais tem como pano de fundo a declaração de um ato de ingratidão. Conhecedor por excelência da natureza humana e das tendências ao esquecimento que acomete aqueles que recebem algum benefício, o Senhor advertiu ao povo de Israel acerca do perigo que eles corriam quando do acesso à terra prometida: “Guarda os mandamentos do SENHOR, teu Deus, para andares nos seus caminhos e o temeres; porque o SENHOR, teu Deus, te faz entrar numa boa terra, terra de ribeiros de águas, de fontes, de mananciais profundos, que saem dos vales e das montanhas… Comerás, e te fartarás, e louvarás o SENHOR, teu Deus, pela boa terra que te deu. Guarda-te não te esqueças do SENHOR, teu Deus, não cumprindo os seus mandamentos, os seus juízos e os seus estatutos, que hoje te ordeno; para não suceder que, depois de teres comido e estiveres farto, depois de haveres edificado boas casas e morado nelas; depois de se multiplicarem os teus gados e os teus rebanhos, e se aumentar a tua prata e o teu ouro, e ser abundante tudo quanto tens, se eleve o teu coração, e te esqueças do SENHOR, teu Deus, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão” (Dt. 8: 6,7;10-14).

No Novo Testamento esta patologia se manifesta em índice percentual que revela que esse é um sério problema que acompanha a humanidade há séculos: “De caminho para Jerusalém, passava Jesus pelo meio de Samaria e da Galileia. Ao entrar numa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez leprosos, que ficaram de longe e lhe gritaram, dizendo: Jesus, Mestre, compadece-te de nós! Ao vê-los, disse-lhes Jesus: Ide e mostrai-vos aos sacerdotes. Aconteceu que, indo eles, foram purificados. Um dos dez, vendo que fora curado, voltou, dando glória a Deus em alta voz, e prostrou-se com o rosto em terra aos pés de Jesus, agradecendo-lhe; e este era samaritano. Então, Jesus lhe perguntou: Não eram dez os que foram curados? Onde estão os nove? Não houve, porventura, quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro? E disse-lhe: Levanta-te e vai; a tua fé te salvou” (Lc. 17:11-19). Ainda que aparentemente antônimas, as palavras arte e agradecer preservam estreita relação conceitual. A arte é a capacidade criadora de expressar ou transmitir sensações ou sentimentos; enquanto que, agradecer é demonstrar ou expressar gratidão; oferecer graças; reconhecer. São essas qualidades que Deus deseja que se manifestem na vida do seu povo.

Um coração agradecido é aquele que reconhece favores não merecidos, que tem consciência que estava perdido e caminhava a passos largos para a perdição, mas foi graciosamente alcançado e transformado: “Naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo. Mas, agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo” (Ef. 2:12-13); um coração agradecido é aquele que reconhece que tudo quanto possui vem de Deus: “Não vos enganeis, meus amados irmãos. Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tg. 1:16-17); um coração agradecido se reconhece através da submissão a vontade de Deus, ainda que antagônica aos projetos e interesses humanos, sua consciência lhe permite compreender que: “… todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm. 8:28); um coração agradecido manifesta-se através da verbalização do atributo da bondade de Deus, não obstante as nuances da vida: “Tu és bom e fazes o bem…” (Sl 119:68 a). O que dizer mais acerca dessas qualidades tão ausentes e necessárias na vida do povo da aliança? O coração agradecido é o coração regenerado, lavado pelo sangue do cordeiro.

Um dos pecados mais abomináveis aos olhos de Deus é o pecado da murmuração. O conceito de murmuração indica o ato de apontar faltas, criticar censurando, falar contra alguém ou alguma coisa. Foi esse o pecado do povo de Israel quando resgatado do cativeiro egípcio: “Disseram a Moisés: Será, por não haver sepulcros no Egito, que nos tiraste de lá, para que morramos neste deserto? Por que nos trataste assim, fazendo-nos sair do Egito? Não é isso o que te dissemos no Egito: deixa-nos, para que sirvamos os egípcios? Pois melhor nos fora servir aos egípcios do que morrermos no deserto” (Ex. 14:11-12). Para fugir do pecado da murmuração é necessário exercitar a arte de agradecer, manifestar consciência dos favores recebidos das dadivosas mãos do Senhor, e como o poeta cristão aprender a declarar: Graças, graças, mil graças, a ti meu Salvador! Graças, graças, mil graças, Por teu precioso amor!

Adilson Lordêlo

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