Palavra Pastoral templo

Published on junho 5th, 2015 | by ipcf

A que ponto chegou a concorrência!

Quem trafega nas imediações do terminal rodoviário da cidade de Salvador, especificamente, sobre o viaduto Raul Seixas, pode não perceber, mais há ali dois shoppings, um em frente ao outro. O primeiro e mais antigo, o shopping Iguatemi, hoje denominado shopping da Bahia, é um dos maiores centros comerciais da cidade, ali o consumidor encontra de tudo um pouco: lojas de departamento, vestuário, calçados, farmácias, bancos, praça de alimentação, parque de diversão, salas de cinema, assistência técnica para aparelhos eletrônicos, engraxates, livrarias, perfumarias, lojas de brinquedos, agência dos correios, clinica médica, um amplo esquema de segurança, além de estacionamento para centenas de veículos, com conforto e segurança, cujo objetivo é atrair consumidores e proporcionar-lhes o máximo de comodidade, a fim de que não haja a necessidade de procurar em outro local o suprimento das necessidades.

Em frente ao mais antigo shopping da cidade, mesmo que muitos não percebam, surgiu há alguns anos outro shopping, o shopping da fé. Ali também há conforto, segurança e estacionamento para centenas de veículos. Outra semelhança marcante, é que, lá também são comercializados diversos itens, que visam conduzir os consumidores à realização dos seus anseios pessoais. São vendidos jornais, contendo histórias ilustrativas de pessoas que alcançaram seus objetivos; lenços que, quando passados em determinadas partes do corpo humano, conferem curas milagrosas; recipientes contendo óleo com poder sobrenatural, e quando utilizados conduz o consumidor acometido de qualquer patologia a receber cura sobrenatural; espadas semelhantes àquela utilizada por He Man, que quando desembainhada tem o poder mágico de gerar força supranatural; lâmpadas que, quando colocadas em residências, refletem uma luz transbordante de poder sobrenatural; sabonetes que, quando manipulados dissolvem um produto com alto poder de cura dermatológica; rosas que, após ungidas com óleo, concentram poder de solucionar diversos males, inclusive sentimental; recipientes contendo água de certo mar, que segundo os seus representantes, ao ser utilizado em um banho de descarrego, abre caminhos; há também no shopping da fé, um dia especial na semana, onde se atribuí maior poder para solução de problemas de diversas naturezas.

Uma avaliação panorâmica, ainda que subjetiva, sinalizará a relação que há entre os produtos comercializados nos dois shoppings. Ambos visam suprir alguma carência dos consumidores, seja de ordem material, psicológica, sentimental ou espiritual. No entanto, a grande diferença entre o primeiro centro comercial e o segundo, é que, enquanto o primeiro tem os seus fundamentos extraídos do consumismo idealizado na era moderna, o segundo, se ampara em fatores históricos, que descrevem a degradação espiritual da igreja romana. Por exemplo, o uso da água benta tem seu ingresso por volta de 113 d. C., e seu apogeu com fins comerciais em 852, quando “Hinemaro, eminente bispo francês, ordenou que a água benta fosse aspergida sobre o povo, casas, gados, e até sobre os alimentos dos homens e dos animais” (COLLETTE, 2001, pp. 237-238). Outro exemplo dessa conexão entre os shoppings apresentados neste pequeno ensaio, subsidiado por dados históricos da degradação do cristianismo medieval, indica que após a suposta conversão do Imperador Constantino no início do IV século a igreja passou a “recolher as relíquias dos mártires” (Ibid, p. 192), com fins cúlticos, dentre as quais, encontravam-se lenços utilizados por discípulos, apóstolos e pais da Igreja. Quanto à criação de um dia especial para fins religiosos, é importante destacar que foi no período do Imperador Constantino, que se iniciou a guarda da sexta-feira santa, como o dia de comemoração da paixão de Cristo. A corretagem do shopping da fé, comercializando lâmpadas, também tem sua raiz na história da igreja. No sétimo século, já havia esta superstição na igreja romana. Carlos Collette afirma que: “Sabino, sucessor de Gregório, ordenou que as lâmpadas permanecessem ininterruptamente acesas nas Igrejas. Lactâncio refere-se com frequência a esse costume, que reputa de ridícula superstição, e escarnece dos romanos, que acendiam velas a Deus, como se ele vivesse nas trevas”. (Ibid, pp. 219-220). Percebe-se que a comercialização dos produtos do shopping da fé, tem fundamentação histórica, os seus empresários são semelhantes aos comerciantes da simonia, que segundo a história saíam à rua e “eram conduzidos numa espécie de coche, esplendidamente vestidos; viviam bem, e suas mesas excediam, na abundância e mimo das iguarias, à dos reis”. (Ibid, p. 198). Esse período ficou marcado pela frase: “Faze-me bispo de Roma, e eu me farei cristão”. (FLEURY, pp. 145-146).

Conscientes de que o comércio no shopping da fé está bem fundamentado na história eclesiástica, resta-nos buscar a fundamentação teológica para esses fatos tão nocivos ao cristianismo. As Escrituras Sagradas nos alertam acerca do aparecimento de falsos mestres, bem como, seu caráter e suas obras. Observe como eles se assemelham aos empresários do shopping da fé: “Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmo repentina destruição. E muitos seguirão as suas práticas libertinas, e, por causa deles, será infamado o caminho da verdade; também movidos por avareza, farão comércio de vós, com palavras fictícias; para eles o juízo lavrado a longo tempo não tarda, e a sua destruição não dorme […] Esses, todavia, como brutos irracionais, naturalmente feitos para presa e destruição, falando mal daquilo em que são ignorantes, na sua destruição, também hão de ser destruídos, recebendo injustiça por salário de injustiça que praticam. Considerando como prazer a sua luxuria carnal em pleno dia, quais nódoas e deformidades, eles se regalam nas suas próprias mistificações, enquanto banqueteiam junto convosco; tendo os olhos cheios de adultério e incansáveis no pecado, engodando almas inconstantes, tendo o coração exercitado na avareza, filhos malditos (II Pe. 2:1-3,12-14). O apóstolo Paulo em carta ao jovem pastor Timóteo, o advertiu acerca de tempos em que surgiriam mercenários, que teriam aparência de piedade, mas a negariam pelo modo viventis: “Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes […], tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto o poder. Foge também destes” (II Tm. 3: 1,2,5).

Após a compreensão histórica e teológica dos fundamentos dos ensinamentos disseminados no shopping da fé, bem como, à origem do comércio de seus produtos, é necessária redobrada atenção ao circular nas imediações da rodoviária da cidade de Salvador. De forma especial, deve-se dispensar muita atenção ao circular entre um shopping e outro, a fim de não entrar no shopping errado, não esquecendo o ensino da Escritura: “Ouvi outra voz do céu dizendo: retirai-vos dela, povo meu, para não serdes cúmplices em seus pecados e para não participardes de seus flagelos” (Ap. 18:4).

Adilson Lordêlo


About the Author



Back to Top ↑