Palavra Pastoral

Published on abril 23rd, 2015 | by ipcf

0

Do Sétimo dia ao Sabath

Do Sétimo dia ao Sabath

Parte da dificuldade para entender os aspectos inerentes ao quarto mandamento do decálogo repousa sob as múltiplas interpretações conferidas ao tema. Há um grupo cujo conceito estriba-se na ideia de que o dia a ser guardado é o sétimo, o sábado do nosso calendário; outro, que entende que não se deve fazer distinção entre dias, e, portanto, qualquer dia da semana deve ser guardado como sábado cristão; e, por fim, aqueles que defendem a ideia de que o Dia do Senhor é o domingo, o primeiro dia da semana.

Sábado na Bíblia tem a mesma conotação em ambos os Testamentos, significa descanso. Este dia foi instituído antes da queda (Gn. 2:2-3); qualificado como um presente do Senhor (Ex. 16:29-30); tem caráter perpétuo, pois está contido na Lei Moral de Deus (Ex. 20:8-11); a Escritura ensina em (Is. 56:2), que aquele que guarda o sábado é considerado “bem aventurado”; o profeta também afirma (Is. 58:13-14), que a guarda do sábado é fonte de benção. Neste dia o trabalho é proibido (Ex. 34:21); não se deve cuidar dos próprios interesses (Is. 58:13); as transações comerciais são abomináveis (Ne. 13-15-17); contudo, as obras de necessidade e misericórdia são permitidas. Os guardas do palácio em serviço eram trocados (II Rs. 11:5-8); e havia condução de sacrifícios ao templo (Nm. 28:9-10).

As grandes confissões de fé reformadas estabelecem o valor desta doutrina. A pergunta e resposta 103 do Catecismo de Heidlberg (catecismo das Igrejas Reformadas) está disposta como segue: “O que exige Deus no quarto mandamento? R. Primeiro, que o ministério do evangelho e as escolas cristãs sejam mantidas e que eu, especialmente no dia de descanso, seja diligente em ir à igreja de Deus para ouvir à Palavra de Deus, participar dos sacramentos, para invocar publicamente ao Senhor e para praticar a caridade cristã para com os necessitados. Segundo, para que em todos os dias da minha vida eu cesse as minhas más obras, deixe o Senhor operar em mim por Seu Espírito Santo, e assim começar nesta vida o descanso eterno”. A pergunta 59 do Breve Catecismo da Igreja Presbiteriana do Brasil afirma o seguinte: “Qual dos sete dias Deus designou para ser o Sábado (=descanso) semanal? R. Desde o princípio do mundo, até a ressurreição de Cristo, Deus designou o sétimo dia da semana para o descanso semanal; e a partir de então, prevaleceu o primeiro dia da semana para continuar sempre até o fim do mundo, que é o sábado cristão (=domingo)”. A pergunta 116 do Catecismo Maior da Igreja Presbiteriana do Brasil, discorrendo sobre as exigências inerentes ao quarto mandamento, declara: “O que se exige no quarto mandamento? R. O quarto mandamento exige de todos os homens o santificar ou guardar santo para Deus todos os tempos específicos que Deus designou em sua Palavra… que era o sétimo desde o princípio do mundo até a ressurreição de Cristo, e primeiro dia da semana desde então até o dia de hoje, e há de assim continuar até ao fim do mundo; o qual é o sábado cristão, e no Novo Testamento é chamado o Dia do Senhor (Domingo)”. A Confissão Helvética ao discorrer sobre o Dia do Senhor, afirma: “Por isso vemos que nas Igrejas antigas não havia apenas certas horas da semana destinadas ás reuniões, mas que também o Dia do Senhor, desde os tempos dos apóstolos, fora separado para as mesmas, e para o santo repouso. Prática essa, acertadamente preservada por nossas Igrejas para fins de culto e serviço de amor”. A Confissão de Fé de Westminster, legou a cristandade a seguinte orientação: “Como é lei da natureza que, em geral uma devida proporção do tempo seja destinada ao culto a Deus, assim também em sua Palavra, por um preceito positivo, moral e perpétuo, preceito que obriga a todos os homens em todos os séculos, Deus designou particularmente um dia em sete para ser um sábado (descanso) santificado por Ele; desde o princípio do mundo até a ressurreição de Cristo, esse dia foi o último da semana; e desde a ressurreição de Cristo foi mudado para o primeiro dia da semana, dia que na Escritura é chamado domingo, ou dia do Senhor, e que há de continuar até ao fim do mundo como sábado cristão”.

As confissões supracitadas descrevem em linguagem clara, que há uma diferença significativa entre a guarda do sabath na experiência do povo hebreu e a relação com o quarto mandamento na igreja primitiva. Percebe-se que há uma diferença fundamental na mudança do dia de descanso, do sétimo, para o primeiro dia da semana, fato que tem como alicerce, o evento da ressurreição de Cristo concretizada no domingo, primeiro dia da semana: “No findar do sábado, ao entrar o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro […] Mas o anjo, dirigindo-se às mulheres, disse: Não temais; porque sei que buscais Jesus, que foi crucificado. Ele não está aqui; ressuscitou, como tinha dito. Vinde ver onde ele jazia” (Mt. 28:1, 5,6); O evangelista João, também destacou o fato de Cristo ter ressuscitado no primeiro dia da semana: “Ao cair da tarde daquele dia, o primeiro da semana, trancadas as portas da casa onde estavam os discípulos com medo dos judeus, veio Jesus, pôs-se no meio e disse-lhes: Paz seja convosco” (Jo. 20:19). O que foi para os judeus um memorial da criação tornou-se para os cristãos um memorial da recriação ou ressurreição de Cristo. Comparando (At. 2:1 com Lv. 23: 15-16), é possível perceber que o derramamento histórico do Espírito Santo (pentecostes), ocorreu no domingo. Quarenta e nove dias alcançariam sete sábados, e o quinquagésimo dia seria um domingo, o primeiro dia da semana. O culto entre os cristãos primitivos acorria no domingo (At. 20:7); este foi o dia estabelecido para a “coleta” (recolhimento das ofertas) (I Co. 16:1-2); foi esse também o dia (domingo), em que João recebeu a revelação do Apocalipse (Ap. 1:10).

Há uma quantidade significativa de crentes que caminham sem norte quando o tema abordado é o dia do Senhor. Alguns por conveniência, outros, por ignorância teológica, oscilam entre a guarda do sábado (sétimo dia), ou o dia da conveniência. É importante fazer uma distinção clara entre sábados, pois, alguns se encontram no plural e tem relação com a lei cerimonial, cumprida e abolida pelo sacrifício de Cristo; outros, no entanto, encontram-se no singular, o sábado cristão, mencionado no decálogo (dez mandamentos), e tem caráter perpétuo, sendo um memorial da criação para os judeus e na nova aliança, da ressurreição de Cristo.

Portanto, nem sábado (sétimo dia), muito menos qualquer outro dia da semana, o sabath, dia de descanso é o domingo (primeiro dia), um dia de cessação do labor terreno, um tempo de culto, uma experiência que prefigura a eterna felicidade do crente no céu.

Adilson Lordêlo

Tags: , ,


About the Author



Back to Top ↑