Palavra Pastoral

Published on maio 21st, 2015 | by ipcf

O Culto Cristão e as Danças Litúrgicas

No editorial anterior exploramos o surgimento de alguns modismos que invadiram o culto cristão nos últimos anos, de forma especial a inserção do uso das palmas. Foi possível perceber que não há fundamento histórico, teológico, muito menos confessional para a utilização das palmas como elemento do culto cristão, pois elas jamais foram utilizadas pela comunidade judaica como elemento integrante do culto, bem como pela igreja apostólica.

O constante crescimento de comunidades evangélicas em solo pátrio, cujos pastores são projetados à liderança sem o devido preparo teológico, representa uma das causas do surgimento de novos elementos que são constantemente inseridos no culto cristão. Para entender os aspectos relacionados ao surgimento das danças litúrgicas no âmbito do culto cristão, é importante, inicialmente uma avaliação exegética. Os termos bíblicos para a palavra dança, em ambos os testamentos indicam que: “O vocábulo é uma das possíveis traduções da palavra grega paizo e seus correlatos, bem como da palavra shireh da língua hebraica. São elas comumente traduzidas por: ‘agir como criança’, ‘brincar’, ‘dançar’, ‘gesticular’, ‘zombar’, ‘imitar’. É relacionada com o substantivo paidía ou paidiá trazendo sempre a ideia de ‘jogos eróticos’. Paizo tal como foi usada pelos gregos, muito comumente denota este verbo, ‘falta de seriedade com alguma coisa em termos de atitude ou conduta’. Significa também, ‘saga levianamente tratada ou inventada’, ‘gesticular’, ‘zombar’, ‘ridicularizar’, ‘lascívia’, ‘libertinagem’, ‘licenciosidade’, ’tolice’ e ‘estupidez” (MORAES, 1998).

A análise teológica do significado das danças, também é associada com a ausência de reverência exigida no culto cristão: “Nas passagens escatológicas encontramos as seguintes traduções para a mesma palavra: Jeremias 31:4 ‘dança’; 30:19 ‘júbilo’; e Zacarias 8:5 ‘brincarão’. Outras passagens são encontradas, a saber: I Reis 18:26; onde lemos a referência ao ‘manquejar’ dos profetas ao redor do altar de Baal. Em Juízes 16:25-27 que narra o infortúnio de Sansão, quando é trazido para o palácio. Ali a palavra é traduzida por ‘divertir’, ‘escárnio’. Em Êxodo 32:6, o povo de Israel, recém-liberto do cativeiro egípcio, dança diante do bezerro de ouro. Ilustrativas são as passagens de Gênesis 21:9 e 26:8. A primeira fala de Ismael que ‘caçoava’ (ridicularizava) de Isaque, o que provoca em Sarah uma profunda indignação […] No Novo Testamento a palavra paízo ocorre somente em I coríntios 10:7, fazendo citação do Velho Testamento em Êxodo 32:6. É o repudiar de todo culto pagão. Aqui está relacionado com a idolatria. O texto de Êxodo se refere a uma dança cúltica. Como em Gênesis 26:8; 39:14-17, a palavra que ali aparece tem um sentido erótico . Assim pode ela denotar, tanto idolatria como licenciosidade cúltica’’ (MORAES, 1998).

A Igreja Presbiteriana do Brasil, em sua XXXIV reunião ordinária SC/IPB-98, assim se posicionou sobre o tema em foco:

“1) Que os Princípios de Liturgia da IPB prescrevem no Capítulo III, Arts. 7 e 8, que ‘O Culto público é um ato religioso, através do qual o povo de Deus adora o Senhor, entrando em comunhão com Ele, fazendo-lhe confissão de pecados e buscando pela mediação de Jesus Cristo, o perdão, a santificação da vida e o crescimento espiritual… ‘constando’ ordinariamente de leitura da Palavra de Deus, pregação, cânticos sagrados, orações e ofertas…;

2) Que a vida cristã em todas as suas facetas é integral, e o culto a Deus como manifestação responsiva do seu povo, envolve a emoção, à vontade e a razão;

3) Que dentro da compreensão Reformada do Novo Testamento, no culto além da sinceridade do adorador e obediência aos preceitos bíblicos, no que concerne ao participante deve predominar a inteligibilidade da adoração (Rm 12.1-2);

4) Que ‘… O modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por Ele mesmo e tão limitado por sua vontade revelada, que não deve ser adorado segundo imaginações e invenções dos homens ou sugestões de Satanás nem sob qualquer outra maneira não prescrita na Santa Escritura’ (Confissão de Westminster, 21.1);

5) Que o Culto é a nossa mais nobre atividade, colocando o espírito humano em comunicação com Deus eterno;

6) Que a ênfase acentuada no movimento físico durante o culto, além de não se constituir em praxe presbiteriana, não contribui para a sua inteligibilidade, antes, propicia desvios do sentido mais profundamente bíblico da adoração cristã…”. (texto completo em: www.executivaipb.com.br/dança). O zelo litúrgico apresentado pela decisão do supremo concílio de 1998 é corroborado pela afirmação de Alexander Hodge, no comentário a Confissão de Fé de Westminster: “Visto que Deus prescreveu o modo como devemos aceitavelmente adorá-lo e servi-lo, é uma ofensa e um pecado contra Ele que negligenciemos seu método ou, em preferência, pratiquemos o nosso próprio […] não temos, em nenhuma circunstância, qualquer direito, com base nos gostos, na forma ou conveniência, de ir além da clara autoridade da Escritura” (HODGE, A. 1999, p. 369).

É possível perceber que, motivada pela cultura dominante, bem como pelo modismo religioso do momento, a Igreja evangélica brasileira (dentre elas algumas presbiterianas), foi invadida por hábitos eminentemente pagãos, como a dança, que encontrou solo fértil nos templos evangélicos, e hoje é denominada como dança litúrgica, apresentada através de manifestações coletivas, ou de grupos de coreografias. Deve-se lembrar de que, uma das recomendações do apóstolo Paulo a igreja em Tessalônica, teve o objetivo de aguçar o senso critico aos irmãos, a fim de que não se assemelhassem ao mundo: “julgai todas as coisas, retende o que é bom; abstende-vos de toda forma de mal” (I Ts. 5:22-23). Em carta ao jovem pastor Timóteo, ele também o alertou: “Foge, outrossim, das paixões da mocidade. Segue a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, de coração puro, invocam o Senhor. E repele as questões insensatas e absurdas, pois sabes que só engendram contendas” (II Tm. 2:22-23).

A igreja que deveria influenciar o mundo com a contra cultura cristã, é hoje, infelizmente, influenciada. Praticas que outrora foram consideradas como pecaminosas, encontraram ambiente e apoio no relativismo e superficialidade de líderes que abandonaram o oficio profético e vivem para agradar a todos, principalmente a jovens ávidos por novidades. A dança oferecida no culto, por mais “santificada”, “consagrada”, bem intencionada na sua expressão cúltica, permanecerá sendo pecado diante de Deus, ela não faz parte dos elementos do culto cristão, sua prática na Bíblia é associada à licenciosidade e ao erotismo, pois as danças estimulavam a sensualidade e tinham o objetivo de realçar partes do corpo, que culminava no despertamento do apetite sexual. No culto que devemos a Deus não há espaço para criatividade e entretenimento, mas, para adequação a Sua Vontade Revelada nas Escrituras.

Adilson Lordêlo

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