Palavra Pastoral palmas1

Published on maio 21st, 2015 | by ipcf

O Culto Cristão e o Uso das Palmas

Aprendemos nos editoriais anteriores que a verdadeira adoração deve ser prestada de acordo com o principio regulador do culto, as Sagradas Escrituras, onde encontramos base sólida para os chamados elementos do culto cristão.Sabemos também, que não há espaço no culto que deve ser prestado a Deus para as danças gospel, coreografias e a dramatização que substituí a mensagem que deve ser proclamada pelo ministro do evangelho vocacionado e regularmente preparado para esse fim. 

Um dos elementos adicionados ao culto cristão nos últimos anos foram às palmas, elas são utilizadas em larga escala nos cânticos congregacionais, bem como, solicitadas pelos pregadores como forma de homenagem ao Senhor Jesus Cristo, através da fala, “palmas para Jesus”. O que geralmente não se procura é a base bíblica para tais manifestações. Este hábito tornou-se elemento de culto para muitos que chegam a declarar não terem mais condições de cultuar a Deus de outra forma. O fato que chama atenção acerca desse modismo cúltico, é que, as palmas tomaram uma proporção tão grande, que comunidades têm sido divididas, ou em algumas vezes consideradas “frias” em decorrência da resistência ao ingresso desse “elemento cúltico” no momento do culto público e solene.

É necessário entender a luz do Principio Regulador do Culto Cristão o que é autorizado ao culto que deve ser prestado a Deus, e o que não é; para tanto, como igreja confessional e reformada, deve-se atender ao que ensina a Confissão de Fé de Westminster no capítulo XXI, seção 1ª: “A luz da natureza revela que existe um Deus que mantém um senhorio e soberania sobre tudo; que é bom e faz o bem a todos; portanto deve ser temido, amado louvado, invocado, crido e servido de todo o coração, de toda a alma e todas as forças.

Mas a forma aceitável de cultuar ao Deus verdadeiro é instituída por Ele mesmo e, portanto, delimitada por sua própria vontade revelada, de modo que Ele não pode ser cultuado segundo as imaginações e invenções humanas, nem segundo as invenções de Satanás, sob alguma representação visível, ou por qualquer outra forma não prescrita na Sagrada Escritura”. De posse do conceito confessional, que descreve que Deus não pode ser cultuado segundo as imaginações e invenções humanas… ou por qualquer outra forma não prescrita na Sagrada Escritura, é necessário uma pesquisa bíblica acerca do uso das palmas na comunidade de Israel, já que as páginas do Novo Testamento não apontam a sua utilização pela primitiva Igreja Cristã.
Quando se quer provar biblicamente o uso das palmas para o culto cristão, geralmente os textos mais utilizados são os salmos 47 e 150. Contudo, deve-se considerar que: “O salmo 47 onde se fala de palmas, não pode ser tomado como uso litúrgico, pois o uso é figurativo, apresentando Deus como rei; e a coroação de um Rei na terra é feita com a presença de palmas. O salmo 150 é o ápice do saltério, e o louvor ali, é universal. Deste modo, danças são apenas uma colocação do que eu chamo louvor do universo criado, onde tudo, absolutamente tudo, tem voluntária, ou involuntariamente, de louvar a Deus. Se tomarmos literalmente este salmo deveríamos trazer ao culto plantas e animais, pois ‘todo ser que respira’ é convidado a louvar ao Senhor” (FIGUEREIDO, 19991, p. 84). 

No Antigo Testamento o uso das palmas nunca tem nenhuma relação com o culto solene prestado ao Deus de Israel; ao contrário do que se pensa, as palmas eram utilizadas pela Igreja como sinal de indignação e ira: “Então, a ira de Balaque se acendeu contra Balaão, e bateu ele as sua palmas. Chamei-te para amaldiçoares os teus inimigos; porém, agora, já três vezes, somente os abençoastes” (Nm. 24:10); em comemoração quando da queda de alguém, ou como expressão ou sinal de desprezo ou rejeição: “Deus lança isto sobre ele e não o poupa, a ele que procura fugir precipitadamente da sua mão; à sua queda lhe batem palmas, à saída o apupam com assobios”. (Jó 27:22-23); em expressão de prazer, escárnio, sarcasmo da desgraça alheia: “Porque assim diz o Senhor Deus: Visto como bateste as palmas, e pateaste, e, com toda a malícia da tua alma, te alegraste da terra de Israel. Eis que estendo a mão contra ti e te darei por despojo às nações; eliminar-te-ei dentre os povos e te farei perecer dentre as terras. Acabarei de todo contigo, e saberás que eu sou o Senhor”. (Ez. 25:6-7); as palmas eram também utilizadas como sinal de lamento pelas tragédias: “Assim diz o Senhor Deus: Bate as palmas, bate com o pé e dize: Ah! Por todas as terríveis abominações da casa de Israel! Pois cairão à espada, e de fome, e de peste”. (Ez. 6:11); como expressão de alegria quando da aclamação de um rei: “Então, Joiada fez sair o filho do rei, pôs-lhe a coroa e lhe deu o livro do testemunho; eles o constituíram rei, e ungiram, e bateram palmas, e gritaram: Viva o rei!” (II Rs. 11:12); por fim, as palmas eram também utilizadas em sentido figurativo em momentos que denotavam alegria, bem estar geral do povo: “Saireis com alegria e em paz sereis guiados; os montes e ou outeiros romperão em cânticos diante de vós, e todas as árvores do campo baterão palmas” (Is. 55:12). Outras referências bíblicas sobre o tema (Ez. 22:13; Jó 34:27; Na. 3:19; Ez. 21: 14,17; Lm. 2:15; Sl. 98:8) não indicam o uso das palmas no contexto do culto no Antigo Testamento.

É possível perceber, através das citações supracitadas que a Igreja à luz da Revelação Especial, jamais conviveu com as palmas como elemento integrante do culto que deve ser prestado a Deus; no entanto, a cultura dos dias atuais, culminou na invasão de tal modismo nos arraiais evangélicos e influenciou o povo de Deus, que despercebido da exortação paulina,“e não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12:2), abriu as portas de suas comunidades para a entrada de costumes, comumente utilizados nas matrizes de religiões afro-brasileiras, bem como, festividades profanas, tais como carnaval e shows de bandas musicais. Diante de tais fatos, a Igreja que deveria influenciar, tem sido influenciada por costumes pagãos, esquecendo-se que o culto prestado a Deus tem a sua matriz nas Santas Escrituras, e não na cultura vigente. Acerca desta patologia pertinente a Igreja hodierna, bem como da necessidade que há de apresentar a Deus um culto centrado em Sua Verdade, destaca-se o comentário do Dr. Alexander A. Hodge: “O culto oferecido a Deus em assembleia pública, deve consistir de leitura, de pregação e de ouvir a Palavra; de oração, de cânticos de salmos e da administração e recepção dos sacramentos por ele instituídos… Pois, sua aceitação, depende de ser ele acompanhado e fundamentado na verdade pura e indulterável da Palavra de Deus” (HODGE, A. 1999, p. 378). 

Diante do exposto e considerando o que até aqui aprendemos, é importante lembrar que como igreja herdeira do legado reformado, não batemos palmas nos cânticos congregacionais, bem como ao Senhor Jesus, pois tais hábitos colidem frontalmente com o ensino autoritativo das Escrituras. Somos uma Igreja Reformada e herdeira do Sola Scriptura (somente a Escritura), e por isso, não somente o culto, mais as nossas vidas, devem ser regidas pelo ensino da Bendita Palavra de Deus.

Adilson Lordêlo

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