Palavra Pastoral

Published on abril 2nd, 2015 | by ipcf

Símbolos que Ofuscam a Beleza do Significado da Páscoa

Símbolos que Ofuscam a Beleza do Significado da Páscoa

Há uma diversidade considerável de símbolos agregados a algumas festas religiosas no nosso país. A páscoa, festa judaica que encontrou espaço no seio do cristianismo é uma delas. É comum nesse período de festividades pascais a reprodução do comportamento de famílias que se reúnem em tono da mesa para a refeição e utilizam uma vela; para elas, este símbolo representa o Cristo ressuscitado que deixou o túmulo, radioso e vitorioso. Outro símbolo muito comum, de ordem sonora, são os sinos, badalados geralmente no domingo da ressurreição que, segundo alguns, cantam a alegria da ressurreição expressa nos cânticos de aleluia, tocando festivamente, anunciam novos tempos. Destaca-se também como um dos símbolos da páscoa, maciçamente comercializado, o ovo de chocolate, também conhecido como “ovo de páscoa”, aliado e cúmplice direto do coelho, denominado o “coelhinho da páscoa”: O ovo, aparentemente morto, é apresentado como o símbolo da vida que surge repentinamente, destruindo as paredes externas e irrompendo com vida; o coelho, símbolo da rápida e múltipla fecundidade da igreja, que está espalhada por toda a parte, reproduzindo fiéis. Por fim, e muito comum neste período é o hábito de muitas famílias de consumir peixe na chamada sexta feira da paixão, cujo objetivo é um sacrifício que serve como justificação pelos pecados cometidos.

Para entender o que de fato significa a páscoa, é necessário um passeio teológico no Antigo Testamento. A palavra páscoa tem como conceito etimológico, “passar por sobre” ou “saltar por sobre”. A ideia apresentada tem estreita relação com o fato de que na décima praga enviada ao povo egípcio e registrada no livro do êxodo, Deus poupou o povo hebreu do extermínio através da identificação do sangue aplicado nos umbrais da porta das residências do povo da aliança, o que fez com que o anjo da morte poupasse os primogênitos hebreus. O desenvolvimento dos conceitos que envolvem a páscoa no Antigo Testamento aponta ainda para sua instituição. Foi após a travessia do mar vermelho que a páscoa foi instituída e celebrada pela primeira vez através de Moisés que registrou o fato no livro da Lei (Ex. 12), como uma festa familiar. Cada família devia escolher um cordeiro ou cabrito sem defeito, com a idade de um ano. O Antigo Testamento, ainda revela que com o desenvolvimento das festividades pascais, outros elementos foram incluídos ao ritual; como a retirada de todo fermento de suas casas e utilização de ervas amargas. Enquanto comiam e bebiam alegremente o patriarca da família recitava a história de como seus ancestrais experimentaram o êxodo milagroso na terra do Egito e sua libertação da escravidão sob Faraó.

O Novo Testamento também registra o festival pascal, e Jesus Cristo como judeu o celebrou no início e no final do seu ministério público (João 2.13-25; Mt. 26.20,21). É no contexto da última celebração antes da sua morte vicária, que Cristo reúne os discípulos e apresenta novos elementos (pão e vinho) para uma nova celebração (ceia). O Cordeiro perfeito para o sacrifício é identificado por João como sendo o próprio Cristo: “Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1:29), que se torna a páscoa de todo cristão: “Pois também Cristo, nosso cordeiro pascal, foi imolado” (I Co. 5:7). Diante do mar de simbolismos que inunda a festa da páscoa, deve-se lembrar que a beleza da realidade da páscoa cristã é CRISTO, “porque ele é a nossa páscoa”. Sua morte substitutiva e consequente ressurreição é o grande tema de toda a Escritura. Na morte Ele tomou o lugar da humanidade afetada pelo pecado original: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram… Todavia, não é assim o dom gratuito como a ofensa; porque, se, pela ofensa de um só, morreram muitos, muito mais a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, foram abundantes sobre muitos” (Rm 5:12, 15). Na ressurreição Ele garante ao seu povo vitória nos três tempos verbais: Pretérito, presente e futuro. No pretérito o acesso à eternidade feliz a todos que partiram na esperança da sua vinda: “Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra. Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus” (Jó 19:25-26). No presente é o alicerce para uma relação de aliança com aqueles por quem morreu. Assim como Ele conviveu com os seus discípulos no período do ministério público, revelou-se a eles após a ressurreição e chamou eficazmente a Paulo no caminho de Damasco, continua vivo estabelecendo a cada dia aliança com todos aqueles que arrependidos, confessam os seus pecados e se refugiam na Sua graça. No futuro, a ressurreição de Cristo será o firme fundamento para que seus discípulos vençam a morte: “E, quando este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal se revestir de imortalidade, então, se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Graças a Deus, que nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo” (I Co. 15:54-57). É importante destacar que além de vencer a morte os discípulos de Cristo ainda receberão corpos glorificados: “Não queremos, porém, irmãos, que sejais ignorantes a respeito dos que dormem, para que não vos entristeçais, como fazem os demais que não têm esperança. Pois se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, assim também Deus trará com Jesus os que nele dormem. Isto vos dizemos pela palavra do Senhor, que nós os que vivermos, os que formos deixados até a vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que já dormem; porque o Senhor mesmo descerá do céu com grande brado, com voz de arcanjo e com trombeta de Deus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro” (I Ts. 4:13-16).

De fato, a multiplicidade de símbolos que estão cristalizados no imaginário coletivo da nossa sociedade é uma das razões pela qual o brilho da páscoa está ofuscado. Cristo, após utilizar os elementos da páscoa judaica (cordeiro, pães asmos e ervas amarga) na última celebração pascal, introduziu novos elementos (pão e vinho) e preservou o antigo significado. O que temos no Antigo Testamento são símbolos que se cumprem na realidade do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. A páscoa é a passagem da morte para vida, Cristo venceu a morte quando ressuscitou ao terceiro dia.
Como cristão herdeiro de uma tradição bíblico/reformada, não permita que a multiplicidade de símbolos, sejam religiosos, ou não, ofusquem a beleza singular, que encontramos naquele que passou da morte para vida: “porque ele é a nossa páscoa” (I Co. 5:7).

Adilson Lordêlo


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